Platão viveu as inflações do mundo helênico, as suas idéias ao respeito do combate à inflação ficaram fortalecidas depois da sua viagem a Siracusa, 387 a.C, mas somente décadas depois percebeu que as suas idéias tinham ido longe demais. O seu discípulo Aristóteles também lutou firmemente contra a inflação e batalhou por uma moeda conversível em todo lugar. Platão e Aristóteles condenariam a economia brasileira montada sobre vários indexadoresl, mas aplaudiriam o regime de metas de inflação  até se dar conta que existem variáveis que não podem ser controladas facilmente.

Se o ambiente econômico, por definição, não é estruturado, se os agentes econômicos têm uma visão imperfeita sobre a economia; se não há estatísticas confiáveis sobre o comportamento das variáveis econômicas; se é impossível predeterminar o valor dos índices de preços porque estes podem elevar-se acima do máximo previsto devido a um aumento do preço do petróleo ou por ocorrência de uma seca, uma inundação, uma geada, e também porque os índices de preços dependem do comportamento das pessoas que ninguém pode controlar. Como ter nessas condições um regime de metas de inflação confiável?

O regime de metas de inflação foi adotado no Brasil em 1999, com o objetivo de disciplinar a política monetária. Devido à inexperiência com esse tipo de controle enfrentamos situações difíceis ao operar as expectativas da inflação. Não bastava que esse regime tivesse funcionado bem em Israel, na Inglaterra, Austrália etc. Era necessário fazer ajustes para adaptar-se melhor à realidade do País. Um desses ajustes seria acabar com os indexadores da economia que continuam por lá simplesmente por descuido, falta de interesse e até por conveniência de alguns agentes econômicos.

Esperava-se que depois de certo tempo, quando o regime de metas de inflação ganhasse alguma credibilidade, os agentes econômicos iriam todos convergir nas suas expectativas de inflação. Faltou o comprometimento do governo e seu conjunto de instituições com a sua política fiscal; o comprometimento da sociedade através dos seus organismos, sindicatos, empresários, trabalhadores; além do comprometimento do Banco Central com a sua política monetária para que todos conjuntamente tomassem decisões em comum acordo.

Nas últimas semanas o aumento do preço do petróleo afetou toda a cadeia produtiva, todos os preços foram afetados e tivemos uma elevação geral no nível de preços, mas não um fenômeno inflacionário, porque não se caracterizou uma continuidade no aumento de preços, fator essencial para justificar uma inflação, apenas houve uma acomodação de preços.

Significa dizer que pode haver variações de índices sem haver inflação. Isso poderia provocar um desvio da meta de inflação, mas aumentar a taxa de juros não seria correto, porque não há pressões inflacionárias. Um aumento da taxa de juros nesse momento só faz destruir o bem-estar.

Se não temos um diagnóstico exato do que provoca o aumento dos índices de preços, mas sabemos que o importante é manter os índices constantes, a inflação e a taxa de juros, nessas condições, são apenas um assunto acadêmico.

Mas, para o homem comum brasileiro um aumento irrisório de preços é um perigo, sente-se ameaçado pela inflação e acha que tem em excesso uma coisa que lhe falta. Para não ficar por baixo este homem comum também aumenta os preços dos produtos que ele comercializa, porque tem medo de voltar à época em que 100 mil cruzeiros de maminha o entregador enfiava por baixo da porta.